Beatriz Lopes
beatrizlopes.com

Quando reflito sobre as minhas memórias de infância, uma delas está sempre presente e repete-se, nem que seja uma vez por ano: a casa do meu avô, no campo. Confunde-se com um sonho vivo ou com uma memória adormecida. Sei que passei lá um natal e não me lembro de estar frio. Recordo-me do cão da vizinha, que sempre que me ouvia a chorar vinha a correr para o portão. Estas memórias são minhas. Sei que se pensar muito nelas lembro-me de detalhes e pormenores, mas se não o fizer ficam turvas, embaciadas e frágeis. Para mim, a encarnação física do tempo é ver esta relva a crescer, o terreno a ficar baldio e a reação do meu avô por se sentir impotente e incapaz, em relação aos anos anteriores.

When I reflect on my childhood memories, one of them is always present and repeats itself, even once a year: my grandfather's house in the country. It is confused with a living dream or a dormant memory. I know I spent a Christmas there and I don't remember being cold. I remember my neighbor’s dog, who would run to the gate whenever he heard me crying. These memories are mine. I know if I think about them a lot, I remember details and details, but if I don't, they get blurred, foggy and fragile.
For me, the physical incarnation of time is watching this grass grow, the ground become vacant, and my grandfather's reaction to feeling powerless and helpless compared to previous years.